Era madrugada. Ainda se ouvia o silêncio da noite quando *Ana viu seu mundo desabar. Sem entender muito bem o que acontecia, entre beijos e carícias, ela foi estuprada pelo próprio pai. A garota viveu a realidade de muitas meninas que estão sendo vítimas dessa violência. Fazendo uma volta ao passado, a jovem, que se tornou mulher nas mãos do pai, relata as incertezas, os medos e a posterior revolta que a consumiu no período em que foi abusada. Mais ainda, revela o sentimento que nutre até hoje ao lembrar das cenas que vivenciou como protagonista daquela relação incestuosa.
“O meu passado não me dá medo, ele me dá orgulho pelo que eu me tornei. 1ª vez foi na casa de uma tia, na sala. Ele tinha bebido e talvez usado drogas. Ele começou a aliciar e eu estava semi dormindo. Eu me afastei. Não queria. Eu tinha 13, 14 anos. Ano de 2009. Quando a gente tem essa idade, não sabe definir de fato o que era o carinho.
Achei estranho o ocorrido e comecei a me perguntar se toda relação entre pai e filha era assim. Quando via uma família na rua, lembrava daquelas cenas e achava que acontecia com todas as meninas. Até me culpava por estar questionando.
Foram 5 meses de abuso constante. Era horrível. Eu não queria, mas eu não podia falar nada porque eu estava em um outro estado, longe da minha família, de todo mundo, e eu tive que aguentar. Eu aguentei por condições financeiras porque eu não sabia o que eu ia fazer, eu era menor de idade e não sabia para onde ia, porque eu estava em São Paulo; como eu ia me virar, eu tinha medo que acontecesse uma coisa pior e, se eu voltasse para Manaus, eu não sabia como minha mãe estava porque, nessa época, ela deixou de falar comigo pois ela estava casada com um rapaz e ela me expulsou de casa por causa disso. Então, eu estava com medo e não sabia o que fazer. Meus amigos notavam nas minhas publicações no Orkut, na época, o meu jeito estranho.
Então, rolaram os abusos e sempre ele me pedia segredo e me ameaçava. Ele usou camisinha algumas vezes e outras não. Inclusive, houve uma vez que ele ejaculou dentro de mim e me pediu para tomar uma pílula do dia seguinte. Foi muito difícil assim tudo isso. Quando eu decidi falar, eu já estava no meu limite, já não sabia mais o que eu fazia, estava já assim… porque ele me mantinha ali. Não deixava eu falar com ninguém. Ele me violentava psicologicamente. Tentou me agredir, mas nunca fez isso.
Na 1ª vez, eu senti dor, mas eu não era mais virgem. Havia rolado já com um garoto da escola, mas foi uma experiência horrível. Quem tirou a minha virgindade foi um menino da escola, que foi horrível também, foi péssima essa experiência. Mas, enfim, chegou uma época em que eu fiquei confusa porque eu não sabia mais o que era um pai. Não sabia mais se isso era normal, se isso acontecia em outras famílias porque ele me dizia que isso era normal e que ele era meu pai, que ele podia fazer o que quisesse comigo.
Ele me obrigava a fazer coisas que eu não gostava, sexo oral, tudo o que você imaginar de sexo, coisas bem pesadas, assim que lembrar me faz ficar meio ruim, mas, enfim, ainda não me livrei totalmente do trauma. Mas, tenho muito orgulho do que eu sou, tenho muito orgulho de ter lutado pelas minhas coisas, por ter conseguido sair. Eu consegui falar. Não foi tanto tempo não é? Porque tem pessoas que são anos. Eu conheço casos de pessoas que começam com oito anos e o abuso vai até 15, 16. Eu demorei 5 meses. Eu liguei para minha mãe e ela acreditou em mim.
Mas lá ninguém acreditou, até porque ele disse que eu fiz teatro e tal. Realmente, eu fiz arte cênica, mas isso não tem nada a ver com o que aconteceu, até porque ele era um cara que eu tinha muito orgulho, tinha muita admiração por ele. Então, para mim, foi uma traição dupla, foi algo muito desconstrutivo para mim. E foi muito difícil encarar isso porque ele era uma das pessoas que eu mais amava.
Como eu era jovem, e eu tinha medo dele por ele ser meu pai, não sabia como reagir e foi aí que eu falei, falei para todo mundo e foi muito ruim porque… (PAUSA)
A minha mãe havia se separado do rapaz e me recebeu. Ela me expulsou porque ela morava com esse rapaz e nós morávamos no apartamento dele. Eu fui um pouco rebelde na minha adolescência, mas não porque eu era rebelde, eu só queria o meu espaço. Tanto é que, depois desses episódios todos, eu fui morar sozinha, e eu moro sozinha há 11 anos. E eu não tinha isso porque eu sempre estava na casa dos outros, eu era uma agregada, entendeu? Então, enfim, era isso.
Eu voltei não é, fiquei aqui uns 3, 4 meses e ele voltou e me pediu perdão. E eu perdoei, mas, eu volto a dizer, perdoei porque eu o amava muito e por conta das condições mesmo. Eu precisava de uma estrutura e eu queria uma estrutura para eu estudar e conseguir o mínimo de estabilidade. E ele me deu. Porém, um belo dia, ele disse que nós tínhamos um evento em um lugar turístico. Chegando lá, ele disse que haviam cancelado o evento. Era mentira. Eu falei beleza mas vamos dormir em quartos separados, não é? Ele disse que só tinham conseguido um quarto. E aí, ele bebeu. Eu fui para o quarto e ele tentou, mais uma vez, me aliciar. Mas, dessa vez, eu não deixei. Eu falei para o hotel inteiro, foi uma briga horrível, nós viemos embora para a cidade, daí depois ele ficou tentando falar comigo.
Após uma semana, ele foi lá em casa, com medo de eu contar essa história para a mamãe, mas eu não tinha contado no dia, porque ela estava muito debilitada, ela estava bem doente e eu não queria transferir essa preocupação. Então, eu segurei a minha onda. Só que chegou um momento que eu não consegui mais segurar. E aí eu contei para ela. Nesse dia, a polícia foi lá. Ele foi preso. Houve a denúncia de estupro, porém ele foi preso por agressão porque eles brigaram os dois. Como ele tinha amigos influentes, a polícia não quis denunciar o estupro. Nós fizemos um acordo extrajudicial. Ele não podia se aproximar de mim. Salvo engano, ela não retirou a queixa. Eu não lembro o que houve, mas ela não cumpriu a parte dela do acordo que era retirar a queixa para que não ficasse nada no nome dele, algo nesse sentido. Eu era muito nova na época, eu não lembro. Inclusive, acho que, se for pesquisar, encontra algo.
E aí, passou isso e nós nunca mais nos falamos. E voltamos a nos falar…eu não quis que ele descesse para a penitenciária porque eu não queria levar essa culpa de morte, não é? Porque, para mim, era isso que ia acontecer porque eu sempre ouvia que essa é a penalização, e aí foi isso. Isso foi em 2010, 2009. Eu retornei a falar com ele em 2016, 2015. E aí ele me deu um carro e tal. Carro que todo mundo diz que ele próprio mandou roubar, enfim…rolou isso.
A minha mãe odeia ele. Ela se sente culpada por tudo. Hoje em dia, embora eu a ame muito, e eu não tenha nenhum tipo de cobrança a ela em relação a isso, dentro dela ela acha que falhou como mãe, mas aí já é uma coisa dela, uma coisa que ela precisa resolver com ela. Eu acho que ela foi imatura, diante das decisões dela, assim como eu acho ainda que ela é imatura nas decisões que ela toma para a vida dela. Eu acho que ela é um pouco inconsequente, mas eu sou filha não é? Então, eu me boto no papel de filha, não me boto no papel de mãe. Então, eu deixo que ela realmente entenda…
Eu sou a única filha do casal.
@portalariranha
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